Maio, 1982.
Andava tranqüilo por aquelas margaridas. Era o auge dos meus trinta anos. Eu costumava andar por lá às vezes. “Lá” que eu digo, era o magnífico jardim (a meu ver, claro) que ficava em frente à modesta capelinha que meus pais se casaram. Era lindo. Repleto de uma grama tão verde que nem parecia real. Dentre as árvores infelizmente não frutíferas ficavam várias espécies de flores que eu não saberia nomear agora. Arrisco dizer as margaridas, rosas brancas e amarelas e as tulipas violeta. E várias outras. Ninguém se atrevia a tocar em nenhuma delas. Era uma beleza ameaçadora, se é que me entende. Confesso que ali, a mercê das circunstâncias, eu tentava imaginar-me casando também. Minha mulher vestida completamente de branco, arrastando a longa cauda do vestido pelo jardim até adentrar a capela. Eu estaria lá dentro, engomado e incomodado, esperando por ela sem nem ao menos piscar… E perdia-me no tempo ali, parado, olhando o nada, até que o nada virasse estrelas. Tão brilhantes e distantes. Confesso que não gostava muito delas até ela me aparecer. Ela, de cabelos negros amarrados no topo da cabeça, vestido alvo beirando os joelhos e olhos cor de âmbar. Fazia dias que a via ali, pouco depois das seis da noite, todos os domingos. Eu como amante eterno do tédio, estava lá duas, três vezes por semana, não importava o dia. Passei a escolher especificamente os domingos para alimentar minha curiosidade sobre aquela pequena incógnita, que observava o céu estrelado até pouco depois das nove da noite. Sempre os mesmos dias e os mesmos horários. Queria saber o nome dela. Voltava pra casa matutando sobre quais seus possíveis motivos e não chegava a nenhuma conclusão. Foi no domingo seguinte que tudo começou. Estava lá, no mesmo horário de sempre, porém com os negros cabelos soltos. A lua cheia que fazia, brilhava sobre sua pele alva. Eu estava vidrado. Enfeitiçado pelos encantos daquela menina que não devia passar dos seus vinte e poucos anos. Não conseguia tirar os olhos dela. Ela percebeu. Caminhou até mim lentamente, mal estava a olhar-me nos olhos. Quando percebi que ela já estava perto, perto demais. Não que eu me importasse, claro. Seus olhinhos finalmente saíram do chão e foram ao encontro dos meus. “Algum problema?” “Problema?” “É.” “Olha moça, problemas eu tenho vários, está disposta a ouvir?” – Ela soltou uma risadinha baixa e gostosa de ouvir. Eu quase pedi pra que ela risse novamente. – “Sou Fernanda.” – Fernanda. Que nome bonito. Fernanda era o nome de uma mulher que – “E o seu?” – Que merda de idiota eu sou? A menina me diz o nome e eu fico aqui, com essa cara de merda, olhando pra ela sem dizer nada, pelo amor de Deus, alguém me bata na cara – “Sou Mateo.” “Foi um prazer Matheus.” “É Mateo…” – Sorri sem graça e ela sorriu mais sem graça ainda – “Mas não tem problema, as pessoas normalmente confundem mes” – Era mentira. Ninguém nunca havia errado ou confundido, mas eu disse para que ela não ficasse constrangida. Mas antes mesmo que eu terminasse a frase, ela olhou o relógio e fez uma carinha de espanto. Deu-me as costas e acenou com a cabeça. Eu nem mesmo sei se ela prestou atenção no que eu dizia. Acenei com a mão de volta para o vazio. Ela já não estava lá.
Fiz questão de chegar mais cedo no domingo posterior, eu iria falar com ela assim que ela chegasse. Não por irritação por ela ter errado meu nome, mas sim por esse ser um pretexto para falar com ela novamente. Fiquei remoendo isso durante toda a semana. Levou uma eternidade para chegar novamente o domingo. Eu não sabia nem ao mesmo o porquê desse interesse doentio nessa menina. Havia algo nela. Havia algo… “Oi.” – Tomei o maior susto ao ouvir sua voz me tirando dos meus devaneios e ela percebeu. Soltou mais uma daquela risadinha – “Pensamentos aleatórios?” “Anh?” “Nada. O que lhe trás aqui novamente Matheus?” – Pensei em corrigi-la novamente, mas “Matheus” soava tão bonitinho a sua voz, resolvi deixar pra lá, não sairia dali mesmo, uma conversa de pracinha – “O tédio. E o que trás você aqui hoje e em todos os outros domingos, as exatas seis da noite?” – Falei demais. Merda. Ela esboçou um sorriso, como quem cogita a ideia de perguntar-te algo, mas desistiu – “As estrelas.” “As estrelas?” “É.” “Sobra-lhe tempo apenas aos domingos?” “Não é isso, é que aos domingos…” – E começou a me explicar toda sua teoria sobre domingos e estrelas. Explicou que seu pai lhe disse que aos domingos é o dia em que estamos mais perto dos céus, o dia em que ficamos mais perto das estrelas. Sabe-se lá porque. Disse também que as estrelas lhe faziam se sentir melhor, que se sentia amiga delas, que contava tudo a elas. E disse que disse muitas e muitas coisas. Contou casos. Contou histórias. Contou as tuas histórias… – “Eu gostava muito de Nan quando era pequena.” “Eu nem me lembrava que isso ainda existia!” “Como não? É uma delícia.” “Como sabe? Tu não pode se lembrar… Não é?” – Ela deu um sorrisinho tão envergonhado que suas bochechas extremante brancas ganharam rodelinhas cor-de-rosa. Não teve como não rir. Ela estava linda. Deu-me um tapinha no braço em sinal de protesto contra minhas risadas, o que me fez rir ainda mais. – “Não vai me dizer que toma Nan ainda, não é mesmo? Você já tem quantos, vinte e poucos anos?” “Vinte e quatro.” “Toma Nan?” “Sério?” “Toma mesmo?” “Qual problema?” “Problema nenhum, Nan.” “Não vai me chamar assim, não é?” “Vou.” “Não vai.” “Porque não? Faz parte do seu nome. Fernanda.” – Ressaltei a parte do “nan” enquanto dizia seu nome – “Não tem graça.” “Ah, tem sim!” Rimos. Rimos pouco. Rimos muito. Então ela olhou para o relógio. “É tarde.” “Não passa das dez ainda, tem que ir pra casa beber o Nan?” “Não irrita.” “Vai beber Nan.” Ela revirou os olhos e me olhou como se analisasse minha idade mental. Ela me deu cinco no máximo. Levantou-se e eu fiz o mesmo. Depois de tanta conversa, ela nem tinha admirado as estrelas. Talvez nem se lembrasse disso. Acho que encontrou um amigo de verdade. “Vou indo Matheus, foi um prazer.” E sorriu. Que sorriso lindo. Que boca linda. Ela era linda. “Hm… É, vou mesmo. Tchau, a gente se fala.” Não me contive. Puxei-a pelo braço assim que ela me deu as costas. Não deu tempo para que ela se assustasse. Meus braços envolveram tua cintura e meus lábios tocaram os dela, gentilmente. Pra minha surpresa, ela retribuiu o beijo, mas não tão gentilmente assim. Havia urgência em teus lábios, que mesmo urgente eram doces, e em seguida nas tuas mãos que agarraram meu pescoço, que mesmo rudes eram macias. Pode parecer redundante, mas a boca dela tinha mesmo gosto de Nan. E esse foi o primeiro beijo que eu dei na mulher da minha vida. E ainda bem que o dei.
Agosto, 1982.
Passei algumas noites acordado pensando qual a melhor maneira de fazer isso. Quero dizer, não existe uma maneira ruim, mas eu queria que fosse inesquecível, afinal, era com a Fernanda. Eu queria que ela fosse minha noiva. Assim mesmo, pulando a parte do namoro. Eu estava certo do que queria, era um homem feito, não precisava perder tempo com bobagens de adolescentes. Ou será que ela não acha bobagem? Ela me deixa tão confuso, tão desconcertado. E isso é uma das coisas que amo nela. Amo tudo. Absolutamente tudo nela. Amo mais ainda o cheirinho dela pela manhã. Já falei como ela é linda dormindo? “Mateo!” – Ela tinha aprendido meu nome agora, me chamava de Teo, Teteo, Mat… Eu que nunca gostei de apelidos, achava lindo. Derretia-me todo – “Oi, Nan.” “Cadê aquela tua blusa comprida azul-leão?” – Ela tinha uma mania de falar azul-leão no lugar de azul-marinho que eu não entendia por nada. Ela sempre explicava que era porque era azul-leão-marinho e que ela tinha preguiça de dizer tudo. Nunca questionei – “Não sei não Nan, pra que tu quer ela?” “To com frio.” “E pra quê tu quer uma blusa com um homem aqui pra te esquentar, Nan?” “Tu sabe.” “Sei do que mulher?” “Que eu não conseguiria só me esquentar contigo…” – Olhei pra cara dela e não consegui conter, soltei uma risada. Prendi-a em meus braços e beijei-lhe o pescoço. Era de maldade mesmo, pra irritar – “Tu gosta né Mateo.” “De você? Demais.” “De provocar.” “Funciona?” “Nem um pouco.” “Funciona.” “Cala a boca.” Esse “cala a boca” era sinônimo de “me beija” e beijei. E nós fomos nos esquentar, no calor do nosso amor.
Dezembro, 1982.
“Teo.” “Oi.” “Vem cá.” “Tou aqui, Nan.” “Vem cá, mais perto Teo.”“Que carência é essa Nan?” “Carência não, quero te contar uma coisa.” “Pode falar.” “Quero falar pertinho.” “Mas eu to perto.” “Mais pertinho Teos, anda!” Puxei ela pra perto de mim e passei meu braço pelos teus ombros, logo em seguida beijei tua testa. “Pode falar Nan.” “Põem a mão aqui Teo.” E apontou pra própria barriga. Coloquei. “Pronto.” “Eu to gorda?” Eu olhei pra ela e revirei os olhos. “Fala sério Fernanda, era isso?” “To gorda?” “Não.” “Não mente.” “Só um pouquinho Nan, não tem problema…” “Então tu admite que eu to gorda?” “Vai começar?” “Admite?” “Sim” “Mas eu não to gorda…” “Pô Nan, que merda de discução sem senti…” “To grávida.” “Você ta o que?!” “Grávida. Tipo, esperando um bebê, entende?” “Engraçadinha.” “E bonitinha também.” “É linda” “E grávida.” “Linda ao quadrado.” “O que tu acha?” “Que eu sou o cara mais feliz do mundo.” Eu terminei de dizer e ela me beijou. O beijo com mais amor que pudesse existir.
Maio, 1983.
Voltei àquela praça poucas vezes sozinho, depois que comecei a namorar a Nan. Não bem namorar, não houve um pedido de namoro, nem de casamento ainda. Mas haverá. Hoje. E aqui é o lugar perfeito. É onde nos conhecemos e onde nos casaremos. Eu posso imaginá-la vestida de branco, passando por entre o jardim com a calda branca arrastando atrás dela. Assim como eu imaginava antes de conhecê-la, porem com ela tudo fica mais bonito… Enquanto fiquei imaginando minha futura mulher, ela apareceu, extremamente pontual como sempre foi, as seis da noite. Com aquele barrigão lindo que trazia o fruto do nosso amor. Nossa pequena Emanoele. Como foi difícil chegar ao consenso de um nome! Eu queria Emma. Ela queria Manoele. Parece estranho, mas juntar os nomes nesse caso não ficou tão ruim. Afinal, ela seria linda de qualquer jeito. Tenho certeza que irá puxar a mãe. Ela já estava com sete meses, nós casaríamos com quando a Ema já fosse grandinha e pudesse entrar no nosso casamento. Seria o dia mais feliz da minha vida. Depois, claro, do dia do nascimento na Manu. Ema. Manu. Já eram tantos apelidos… Como sempre, Nan chegava me despertando dos meus devaneios. “Teos?” “Oi meu amor!” “Meu amor? O que foi que tu fez em Mateo?” – Rimos – “Fiz a melhor escolha da minha vida.” “Mas do que tu ta falando?” “Eu escolhi você.” “Mas me escolheu pra quê?” “Pra ser a mulher da minha vida.” “Teos, tu ta me…” “Fernanda, tu aceitas viver comigo pelo resto dos teus dias? Tu aceitas se casar comigo?” O sorriso e as lágrimas que rolaram pelo teu rosto já disseram o “sim” que teus lábios não pronunciaram, pois estavam muito ocupados, colados aos meus.
Julho, 1983.
“Mateo! Mateo!” “Oi, Nan!” “Corre aqui, anda, a bolsa estourou!” Quando eu ouvi “a bolsa estourou” meu coração parou de bater e foi a mil ao mesmo tempo. A Emanoele tava nascendo, meu Deus, que merda eu faço agora? Corri até a Fernanda e pedi que ela se deitasse, eu ia bater no portão da parteira, que logo eu estaria de volta. Ela estava com a blusa azul-leão, deitada quando gritou, dizendo que não daria tempo, para ir depressa. Olhei pra Nan na cama. Sangue. Muito, muito sangue. Meu Deus do céu! Saí correndo pra casa da parteira e bati desesperadamente na porta. Cinco minutos depois ela estava lá no quarto com a Nan. Eu fiquei lá, segurando a mão da Nan o tempo inteiro e passando a mão pelos teus cabelos. Ela gritava, urrava de dor. Saía tanto sangue, eu não imaginei que fosse assim. Finalmente a cabecinha da Ema apareceu e logo após todo o resto. E o choro alto. Limpo. Minha Ema. Peguei-a da parteira, sujinha mesmo e dei pra minha Nan olhá-la mais de perto. Ela beijou a testinha da Manu e fechou os olhos, respirou fundo. Apertou a minha mão. “Teos.” Olhei pra ela extasiado. “Eu amo você.” “Eu amo você Nan. Mais que qualquer coisa.” “Eu amo vocês Teos. Diz pra Manu que ela foi o maior presente que Deus me deu. Diz pra ela Teos.” Eu estava me preparando pra dizer que ela teria muito tempo pra dizer isso ela mesma quando sua mão foi se afrouxando da minha e sua respiração foi falhando, falhando, até cessar. Seu coração parou de bater. Entrei em choque. Comecei a sacudi-la pelos ombros gritando seu nome: “NAN! NAN! FERNANDA! PELO AMOR DE DEUS NÃO FAZ ISSO COMIGO! NAN! ACORDA! NAN…” “Ela perdeu muito sangue Mateo, eu sinto muito.” Disse a parteira. E caí em prantos. Ela havia me deixado. E deixado comigo um pedacinho dela. Minha Emanoele. Nossa Emanoele. Masela não estava mais ali. A mulher da minha vida. Mãe da minha filha. Minha futura esposa. A qual eu amei pelo resto dos meus dias. E eu só queria que ela soubesse disso…
— Incitar